O mar estava nessa tarde majestoso, como, aliás, ela já o esperava encontrar. Ser majestoso, para o mar, era tão fácil como é fácil ser mesquinho um ser humano - é da sua natureza. O azul que o tingia era um azul escuro radioso, quase transparente, sem um resquício de verde. Ao fundo, mesmo ao fundo, no horizonte, unia-se-lhe o céu, um azul-pálido que se cingia contra o escuro. As ondas vinham e iam, iguais a si próprias, estavam muito agitadas, e não havia muito espaço de tempo entre uma rebentação e outra. Mas, surpreendentemente, o barulho que elas faziam era embalador, aconchegante. Ela adormecera durante a sua serena contemplação e só acordou quando o tímido gracejo duma gaivota a despertou. Assustada, ela levantou-se abruptamente, mas logo o seu rosto se descontraiu ao deparar-se com tão adorável criatura. A gaivota fixava-a com um ar algo divertido. Parecia que o bicho sorria. Aliás, ria. Alice olhou à sua volta e reparou nas encantadoras marcas que as patas da gaivota haviam deixado na areia molhada e, depois, virou-se novamente para o animal, que, entretanto, já desviara o olhar.
Alice sentia-se sozinha, solitária, numa palavra, só. Por isso, foi com alguma angústia que viu a gaivota afastar-se progressivamente em direcção ao mar. Decidiu então que também deveria mergulhar nele, que se afigurava tão acolhedor nesse final de tarde. Além do mais, estavam poucas pessoas na praia àquela hora - era dia 28 de Setembro -, o que lhe permitiria estar mais à vontade, só ela e o seu amor, finalmente juntos. Então, desembaraçou-se das suas roupas rapidamente e com elegância, deixando ficar sobre si apenas a roupa interior, e dirigiu-se à imensidão que a esperava, a correr. A gaivota já se tinha ido embora, talvez para saborear sozinha alguma possível presa, vítima da sua pesca impiedosa. As únicas pessoas que se avistavam estavam longe, a mais de vinte metros de distância, e o êxtase que a invadiu por estar ali, sentir a água fria chegar a cada parte do seu corpo, sem avisar, a liberdade momentânea que experimentou, fez mais do que um amigo em dias escuros. A solidão que lhe trespassava o peito desapareceu quase instantaneamente, e ela riu, riu sozinha, muito, muito alto, o que já não fazia desde que não se lembrava.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
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Bem amiga.... Isto está absolutamente maravilhoso. Fizeste-me sentir como se estivesse de corpo e alma naquele mesmo local... Tiveste o poder de me transmitir todas as sensações que aquele ambiente proporciona.
ResponderEliminarExcelente trabalho e continua que eu cá estarei para ler ehehehe
beijos grandes
Adorei!!!
ResponderEliminarM Cachucha
Olá...
ResponderEliminarDá uma espreitadela no meu blog ;)
www.ocantinhodamimi.blogspot.com
Beijinhos*